6. GERAL 3.10.12

1. GENTE
2. ESPECIAL  O JOGO DA FORA DE VONTADE
3. VIDA DIGITAL  NEM TUDO  BOBAGEM
4. VIDA DIGITAL  QUERIDINHOS DA WEB
5. PR-SAL  O DINHEIRO IMIGROU
6. PERFIL  A DESAFIANTE DA GRAVIDADE
7. DEMOGRAFIA  UMA TURMA BEM PREPARADA

1. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Dolores Orosco

FOI A GLRIA
Na vida pessoal, ela tem um daqueles sonoros sobrenomes \ espanhis duplicados: chama-se Sofa Margarita Vergara Vergara. Na vida profissional, a colombiana SOFIA VERGARA, 40, tambm duplica qualquer oportunidade. No bastou chegar estonteante num vestido do libans Zuhair Murad e ganhar um Emmy pelo seriado Modern Family, em que vive a engraadssima Gloria. Ela tambm garantiu que todo mundo conferisse um alegado incidente com perfumezinho de armao  vestido rasga, bem na zona do agrio. Jogou a foto no Twitter e provocou: Isso aconteceu vinte minutos antes de ganharmos, hahaha.

AUSTERIDADE ZERO
O presidente Franois Hollande assumiu uma tarefa herclea: reduzir o dficit oramentrio da Frana, em um ano, de 4,5% para 3% do PIB. Pelo lado positivo, ele est craque em misses impossveis, como administrar o duelo mortal entre a ex-mulher, SGOLNE ROYAL, e a atual, VALRIE TRIERWEILER. A ltima a aprontar foi Sgolne, que cronometrou uma criativa viagem a Nova York para coincidir com a visita dele  sede da ONU. Sgolne chegou a fazer hora no saguo do prdio para cruzar de propsito com o ex. Escaldado, Hollande passou direto. Se fosse qualquer outra pessoa, ele teria parado, reclamou ela. Com o
Twitter embargado depois de suas prprias derrapadas, Valrie fez a fina e s apareceu em compromissos paralelos.

ADEUS, CARMINHA
D at um friozinho na barriga pensar que Avenida Brasil vai acabar logo mais, no dia 19 de outubro. E que inevitavelmente todo mundo comear a falar de Salve Jorge, de Glria Perez. Imaginem ento a ansiedade de sua protagonista, NANDA COSTA, 26. Com apenas trs novelas, ela far um papel principal pela primeira vez. As opes iniciais eram Juliana Paes ou Giovanna Antonelli. Quando a Glria ligou e disse que havia me escolhido, achei que fosse trote, diz Nanda. Ela mergulha em todas as nuances de emoo, elogia a autora. Parte da trama ser na Turquia e espalhar bordes. Mashallah ser o novo inshallah, avisa Nanda, referindo-se  expresso de alegria em rabe que transpe fronteiras.

FECHA A BOCA E DANA
Pobre MADONNA. Deveria ter escrito alerta de ironia para ningum confundir suas palavras  alis, se no metesse a carinha cheia de preenchimentos no assunto, poderia se enrolar menos. Depois de dizer, num show, que era incrvel termos um negro muulmano na Casa Branca, precisou explicar: estava ironizando a crena de certos adversrios extremos do presidente Barack Obama. Madonna segue uma prtica mstica judaico-californiana, adotou dois filhos africanos, tem um namoradinho negro e muulmano (o francs de origem argelina Brahim Zaibat) e se considera qualificada para tratar de assuntos complexos. Se cuida, Michelle.


2. ESPECIAL  O JOGO DA FORA DE VONTADE
Ao emagrecer publicamente em um programa de televiso, o ex-craque Ronaldo serve de espelho para uma das mais difceis buscas do ser humano: a do poder interior que nos faz mudar hbitos ruins.
NATALIA CUMINALE

     O desafio pblico de Ronaldo, que expe heroicamente o barrigo com circunferncia de 107 centmetros no quadro Medida Certa, do Fantstico, em brava luta para eliminar o excesso de peso  ele comeou o programa com 118 quilos , tem muito a nos ensinar a respeito da fora de vontade, do poder interior de vencer o que parece ser intransponvel. O ex-craque de 36 anos, hoje empresrio, sofreu contuses gravssimas, tornou-se o maior artilheiro das Copas e agora briga para emagrecer diante de uma audincia que, no domingo de estreia, chegou a quase 20 milhes de pessoas.  difcil encontrar algum que tenha feito de seu cotidiano uma constante batalha (ao vivo, expondo-a quase diariamente, o que faz toda a diferena) para provar que d, sim  d para comer menos, beber menos, fumar menos, com sucessivas derrotas, o que pressupe ter tido tambm sucessivas vitrias. Depois de abandonar o futebol, em fevereiro do ano passado, Ronaldo fez mais, muito mais, de tudo isso que termina em problemas de sade, saiu de exagerados 98 quilos quando jogava pelo Corinthians para os exponenciais cento e tantos atuais.
     Durante trs meses. Ronaldo seguir as regras determinadas pelo preparador fsico Marcio Atalla, o personal trainer contratado pelo Fantstico. O objetivo  perder 10 quilos ao final da aventura pblica. Por que trs meses?  o tempo necessrio, segundo Atalla, para que o organismo aceite o novo patamar de atividades fsicas. A circunferncia do abdmen do jogador aposentado ter de cair dos 107 centmetros para 94 centmetros. Pressupe-se que a taxa de colesterol, de 283 mg/dl, desa para 200 mg/dl. Mas h grandes esperanas, porque o Fenmeno ainda tem ecos do grande atleta que foi: seu porcentual de gordura corporal est em 25,5%, e basta chegar a 20% para alcanar o nvel ideal para um homem de 1,84 metro de altura. A travessia exigir disciplina. Na quinta-feira da semana passada, VEJA acompanhou Ronaldo. No caf da manh, misturou iogurte com farelo de aveia, tomou suco de trs frutas diferentes. Enfrentou o frio tardio de So Paulo (13 graus) e a preguia para treinar numa academia. Durante trinta minutos, correu a uma velocidade de 6 quilmetros por hora em uma esteira debaixo dgua  em um equipamento convencional, a velocidade equivalente seria de 9 quilmetros por hora. Ele ter de derrotar as tentaes (a principal delas  a carne vermelha, suculenta) e se esforar ainda mais na prtica de exerccios fsicos (uma hora por dia, cinco vezes por semana). Depois de parar com o futebol, precisava de um tempo sedentrio, diz Ronaldo. Maltrataram meu corpo durante vinte anos. Emocionado, o ex-jogador se recorda do perodo entre 1999 e 2001, quando estourou o joelho direito. Na fisioterapia, todos os dias, muitas vezes sozinho, chorava de dor e ouvia barulhos horrveis das fibroses se rompendo na minha perna.
     Fora de vontade, poder interior, determinao e empenho  isso tudo que Ronaldo j demonstrou ter e largou por cansao, e que agora trata de reinventar  so expresses coloquiais para um termo cientfico conhecido como volio. Funo psicolgica primria,  um processo cognitivo pelo qual uma pessoa direciona, de forma consciente, uma ao.  algo mais que mera motivao. Ela  deflagrada quando se deseja algo, e a partir da se adotam estratgias para chegar l. Querer emagrecer, economizar dinheiro, estudar ou matricular-se numa academia so metas alcanveis. D-se o problema quando deparamos com as tentaes do cotidiano (ah, aquela carne que Ronaldo mira com sofreguido, alm do cigarro e do lcool inconfessveis). Estima-se que passemos de trs a quatro horas dirias resistindo a algum tipo de tentao seja para evitar comer um brigadeiro saboroso, seja para no comprar aquele sapato novo com preo amigo. Recentemente, a neurocincia e a psicologia fizeram uma descoberta extraordinria: a fora de vontade no  uma metfora.  fora mesmo. Alimentada e treinada, funciona como um msculo que, exercitado, responde aos comandos e, sedentrio, parece estar frouxo.
     A gnese dos avanos nessa rea aconteceu em 1968, quando o americano Walter Mischel, ento professor do departamento de psicologia da Universidade Stanford, fez uma experincia, seminal, com 653 alunos entre 4 e 6 anos de uma escolinha maternal da Califrnia para testar o autocontrole de meninos e meninas por meio de sua capacidade de resistir a guloseimas. Conhecido como Estudos Marshmallow, o teste  infinitamente reproduzido desde ento  consistia em levar cada uma dessas crianas a uma sala fechada onde um pesquisador pedia a ela que escolhesse o doce de sua predileo. Depois, anunciava que daria uma volta e que, se ela esperasse seu retorno para comer, ganharia um segundo quitute aucarado. A criana tinha a opo de no esperar. Se quisesse se atracar desesperadamente com o bocado a qualquer momento, era s tocar a campainha e cham-lo. Ento, ela era deixada sozinha na sala enquanto o pesquisador a observava atravs de um espelho falso.
     O estudo, belo em sua simplicidade, revelou que apenas um tero das crianas esperou para ganhar a segunda guloseima  resultado que sempre se repetiu nas inmeras vezes em que a experincia foi replicada. A concluso: o senso de urgncia inculcou-se na herana gentica do ser humano e vicissitudes evolutivas, associadas  cultura, nos impedem de esperar para obter uma gratificao maior, s que mais tarde. Anos depois daquela experincia inaugural de Mischel, outro grupo de pesquisadores examinou 59 crianas que tinham participado da primeira etapa. A partir de um exame de ressonncia magntica, eles viram que o crtex pr-frontal, rea responsvel por controlar funes executivas, como tomar decises, era mais ativo em indivduos com maior auto- controle. Na outra ponta, as crianas (agora crescidas) que haviam comido o marshmallow apresentavam o estriado ventral, regio relacionada a desejos e recompensas, mais excitado. Esse embate entre a emoo e a razo, e a primeira  a que sempre desponta, acompanha qualquer um de ns durante a vida. E o que  a vida seno negociar j, calorias ou dinheiro, para receber algo l adiante?
     Lidar com quilos ou reais, do ponto de vista do planejamento, reside no mesmo escaninho cerebral. O economista Eduardo Giannetti, autor do livro O Valor do Amanh, lembra que ningum  obrigado a comprar a prazo. O comprador tem alternativas, mas tende a escolher o prazer imediato, como as crianas dos Estudos Marshmallow.  um comportamento cujas razes esto na biologia. O organismo humano gasta seus recursos na juventude e paga os juros na velhice.  um paralelo adequado a quem se endivida hoje, indivduo ou pas, para antecipar um benefcio futuro, sem perceber que a conta depois vir alta (veja a reportagem na pg. 78). Nosso metabolismo  preparado para ter energia na mocidade e sade mais fraca na maturidade, mesmo se nos cuidarmos.  uma condio que fazia todo o sentido no passado, quando raramente a vida de um ser humano ultrapassava o perodo reprodutivo. Na pr-histria, se um caador no comesse o alimento  sua frente, algum, bicho ou ser humano, o faria, e no se sabia quando seria a prxima refeio. Quem conseguiu transmitir seus genes para a posteridade foi aquele que comeu mais rpido.
     Em nenhuma outra necessidade humana o autocontrole  to testado quanto nos cuidados com o peso. Uma pesquisa encomendada pela Nestl, realizada com 800 mulheres, mostrou que 61% querem emagrecer  um desejo completamente compreensvel. No entanto, quase metade delas admitiu no fazer absolutamente nada para alcanar tal objetivo (veja o quadro na pg. 96).  crime? No.  profundamente injusto, para no dizer indelicado, associar a obesidade  falta de fora de vontade. Afirmar que gordos so preguiosos, e que s  gordo quem quer,  inverdade cientfica. A obesidade  uma doena complexa, que ocorre pela combinao de uma srie de fatores. Cerca de cinquenta substncias, entre hormnios e neurotransmissores, regulam o apetite, a saciedade e o paladar para um ou outro alimento, diz Alfredo Halpern, endocrinologista da Universidade de So Paulo. O homem pr-histrico, alm de guerrear pelo alimento, precisava armazenar energia para sobreviver. A gordura era a melhor forma de acumular energia. A medida que o tempo passou, com a abundncia de alimentos e a diminuio de atividade fsica, houve uma mudana brusca de estilo de vida, afirma Halpern. Embora a cincia no tenha desvendado completamente os mecanismos da obesidade, sabe-se que a fora de vontade  componente essencial para quem deseja emagrecer.
     Infelizmente, o querer  finito. Para piorar, tem um estoque nico, utilizado para todas as nossas atividades cotidianas. No h um tanque de combustvel para a fora de vontade que nos estimula a fazer ginstica e outro para estudar um segundo idioma. A fonte  a mesma, e seca. Para comprovar a teoria, o pesquisador Roy Baumeister, da Universidade Estadual da Flrida, levou estudantes a uma sala com cookies, chocolates e rabanetes, numa vertente daquele estudo com marshmallow. Um grupo pde comer cookies e chocolates. Outro permaneceu no mesmo ambiente, mas s foi autorizado a pr rabanetes na boca. Depois, foram todos transferidos para uma sala onde deveriam resolver um quebra-cabea geomtrico. Pensando que estivessem sendo testados pelos seus nveis de inteligncia, os estudantes se esforaram. O objetivo principal era descobrir quanto tempo tentariam at desistir. Segundo os resultados, quem comeu guloseimas se empenhou para resolver a charada por longos vinte minutos. Aqueles que ingeriram o insosso rabanete desistiram depois de apenas oito minutos. Segundo Baumeister, o trabalho comprovou o que fora intudo  a fora de vontade dos estudantes apartados dos doces minguou precocemente. Eles estavam evidentemente menos dispostos a solucionar a charada que lhes fora proposta.
     O paradoxo detectado  simples. Para ter fora de vontade  preciso comer. O combustvel  a glicose. Os pesquisadores acreditam que as clulas cerebrais trabalham muito para manter o autocontrole e, dessa forma, consomem a glicose mais rapidamente do que se d sua reposio natural pelo organismo. Por isso, o autocontrole soa como um desafio ainda mais complexo para quem faz dietas muito restritivas ou permanece horas sem comer. Nesse caso, indica-se ingerir alimentos com nvel glicmico baixo, como vegetais, frutas e peixes, entre outros. No  o mais agradvel e saboroso dos mundos.
     Ver Ronaldo na televiso lutando contra aquilo que o estigmatizou (alm das confuses noturnas coladas  fama e ao dinheiro)  magntico porque nos faz enxergar o inescapvel. As pessoas vivem sempre em conflito com padres antigos e novos. Tendemos a priorizar o conservadorismo, a no sair da zona de conforto, diz Hlio Deliberador, professor do Departamento de Psicologia Social da PUC, em So Paulo. Por isso  to difcil mudar. Entender o princpio do prazer imediato  o que nos separa dos animais. Os primatas conseguem projetar cerca de vinte minutos no futuro  o bastante para permitir que o macho mais alto e mais forte coma primeiro, mas no o suficiente para planejar outras aes ps-jantar. Planejar o futuro  capacidade exclusiva dos seres humanos. Temos a capacidade de anteviso que nos faz ponderar escolhas, contrastar benefcios imediatos e custos do futuro, afirma o economista Giannetti. O problema  que iguala Ronaldo a qualquer um de ns   sempre adiar, como anteviu Santo Agostinho em suas preces juvenis: Dai-me a castidade e a continncia, mas no agora.

A BALANA DE RONALDO
Aos 36 anos, o ex-jogador  um exemplo acabado de como os fatores externos (tanto os da vida pessoal como os da carreira) podem minar ou fortalecer a disposio para alcanar determinados objetivos, no caso dele a manuteno do peso ideal

1993  1996: 75.00 kg a 78.00 kg
Em 1993, aos 16 anos, Ronaldo estreou como jogador profissional no Cruzeiro. No ano seguinte, foi vendido ao time holands PSV e participou de sua primeira Copa do Mundo. Na Europa, Ronaldo ficou mais musculoso e mais alto, alteraes compatveis com o desenvolvimento de um adolescente. Sua altura passou de 1,79 para o atual 1,84 metro.

1997  2000: 83.00 kg a 85.00 kg
Disputou sua segunda Copa do Mundo como grande estrela da seleo brasileira. A participao no Mundial ficou marcada por uma convulso, ocorrida poucas horas antes da partida final contra a Frana. Nos anos seguintes, Ronaldo sofreu leses graves no joelho direito. Teve leso parcial no tendo patelar do joelho direito em 1999 e, em 2000, uma dramtica ruptura completa, quando disputava a final da Copa da Itlia pela Inter de Milo. Ronaldo ficou quase dois anos sem jogar.

2001  2002: 85.00 a 86.00 kg
Renascido, foi campeo mundial pelo Brasil em 2002 na Copa da Coreia-Japo. Fez oito gols

2003  2008: 86.00 kg a 95.00 kg
Separado da primeira mulher, Milene Domingues, Ronaldo foi visto com vrias modelos at enfim se casar com a modelo e apresentadora Daniella Cicarelli, em 2005. O casamento terminou trs meses depois. Outro episdio marcante na vida do Fenmeno ocorreu em 2008, quando ele amanheceu em uma delegacia carioca ao lado de trs travestis que o acusavam de calote.

2009  2011: 90.00 kg a 98.00 kg
Ronaldo foi contratado pelo Corinthians com evidente excesso de peso. Ganhou um campeonato paulista e uma Copa do Brasil. Fez partidas memorveis, mas apresentou-se sempre rechonchudo. No incio de 2011, despediu-se dos gramados. Ele alegou dores no corpo e disse que o hipotireoidismo era o culpado por sua dificuldade em controlar o peso.

2012: 118.00 kg
Fumante e com hbitos alimentares pouco saudveis, resolveu mudar de vida estimulado pelo quadro Medida Certa, do programa global Fantstico. Trabalha como empresrio e  membro do Comit Organizador da Copa de 2014.

FALTA ATITUDE
Pesquisa realizada com 800 brasileiras de 18 a 44 anos mostrou que elas desejam um corpo esbelto, mas a distncia entre vontade ao  enorme.
Fonte: pesquisa encomendada pela Nestl ao Instituto de Pesquisa Ideafix.

AS MULHERES SONHAM,...
61% pretendem emagrecer
Desse total, 47,4% anseiam perder 10 quilos ou mais
Querem ser como...
Juliana Paes 47,9%
Marilyn Monroe 17,4%
Gisele Bndchen 11%
Joana Prado 10,8%

...MAS FAZEM MUITO POUCO EM BUSCA DO CORPO DESEJADO
49,3% so avessas a dietas e ginstica
20% apenas controlam a comida
29,3% somente se exercitam para perder peso
Entre as sedentrias...
69,3% alegam falta de tempo para se exercitar
20,6% dizem que falta disposio para fazer ginstica

NO FIM, A DUREZA DA VIDA COMO ELA 
22,4% j tentaram emagrecer mais de dez vezes
18,1% tm vergonha de mostrar o corpo ao marido ou namorado
19,2% j deixaram de ir a uma festa por achar que estavam acima do peso

NUNCA PENSE S NO HOJE
Antes, eu no gostava de academia. Depois, descobri que  algo essencial. Meu corpo sente vontade. No comeo, sempre  preciso lutar para se mexer. O jeito  pensar no futuro, nunca s no hoje. - FERNANDA SOUZA, 28 anos, atriz.

AINDA NO ESTOU SATISFEITA
J tentei todo tipo de dieta, fiz exerccios e nunca consegui manter o peso por muito tempo. Fui a spas mais de dez vezes e, h dois meses, fiz lipoaspirao. Mas ainda no estou satisfeita. - KARINA COSTA, 36 anos, empresria.

QUERIA ESTAR MAGRA
Para mudar, preciso de um impulso. Sem isso, meu esforo dura, no mximo, uma semana. A ltima vez que tive fora de vontade foi para comemorar minha festa de aniversrio, que teve temtica rabe. Queria estar magra. - MRCIA DE CASTRO, 55 anos, dona de casa.

MUDEI MINHA VIDA
Decidi perder peso antes do meu casamento. Peguei o embalo da vontade de entrar no vestido de noiva e mudei a minha vida, realmente. No comeo foi difcil me acostumar, mas posso dizer que tive bastante determinao. Meu sonho  permanecer assim para sempre. - FERNANDA GONALVES, 30 anos, relaes-pblicas.

COMO ANDA SUA FORA INTERIOR?
Para a imensa maioria das pessoas, mudar o estilo de vida  tarefa rdua, que requer muita fora de vontade. VEJA elaborou um teste com a consultoria da psicloga Joana Carvalho Ferreira, do Grupo de Estudos da Obesidade da Universidade Federal de So Paulo, para que voc avalie seu grau de autocontrole e determinao.

ETAPA 1: Classifique, em uma escala de 0 (discorda totalmente) a 4 (concordo totalmente), como voc avalia os tens a seguir. [0, 1, 2, 3, 4]

1- Costumo refletir antes de tomar qualquer deciso
2- No me abalo excessivamente por um stress cotidiano banal
3- Gosto de traar objetivos e planejar o futuro
4- Se no estou satisfeito com algo na minha vida, busco mudanas
5- Sou uma pessoa disciplinada
6- Sinto-me desafiado quando trao um objetivo a longo prazo
7- Sou mais esforado do que as pessoas que conheo
8- No costumo adiar meus objetivos
9- Se estou de dieta, consigo resistir  tentao de comer os alimentos mais engordativos
10- Se preciso emagrecer, tenho certeza de que alcanarei o peso ideal
11- Mesmo com preguia ou cansado, no deixo de cumprir minha rotina de exerccios
12- Encaro as dificuldades como uma forma de crescimento e no desisto ao deparar com elas

ETAPA 2
Some os pontos de cada uma das doze questes e confira o resultado abaixo
TOTAL DE PONTOS: 

AT 15 PONTOS: Voc tem pouca fora de vontade. Voc tem dificuldade de se engajar em uma mudana de hbitos para emagrecer ou ter uma vida mais saudvel. Nem sempre  fcil manter-se motivado e resistir s tentaes em um momento de stress. Para mudar, o melhor  buscar o auxlio de um psiclogo que ajude a identificar quais so seus pontos fracos.

DE 16 A 32 PONTOS; Voc s precisa de um empurrozinho. Voc vive lutando para manter seu peso ou emagrecer, mas ainda pode fazer um esforo maior para alcanar os objetivos com mais facilidade. Para atingi-los,  preciso focar o resultado final e lembrar-se disso toda vez que pensar em desistir ou dar um escapulida da dieta.

DE 33 A 48 PONTOS: Voc  determinado.  Quando estabelece uma meta, voc segue at o fim  mesmo que isso signifique mudar completamente os hbitos de vida  e para sempre. Essa determinao favorece qualquer mudana e aumenta sua disposio e confiana para enfrentar novos desafios

CINCO REGRAS VALIOSAS
Alterar hbitos de vida requer muita dedicao e disposio. Algumas tcnicas podem ajudar a fortalecer a sua fora interior, fazendo com que a mudana seja menos penosa.
1- Estabelea um desafio por vez: Quando decidir perder os quilos em excesso, pelo menos no incio do projeto, no se proponha a mais nenhum outro grande objetivo, como resolver o casamento em crise ou entrar na faculdade. Cada desafio a seu tempo. Do contrrio,  grande o risco de nenhuma das metas ser atingida, gerando apenas insatisfao e sentimento de derrota  o que, definitivamente,  desencorajador.
2- Comemore as pequenas vitrias:  fundamental que voc determine quanto pretende emagrecer.  imprescindvel, no entanto, comemorar os gramas perdidos ao longo do processo. Essas pequenas vitrias so uma injeo de nimo rumo ao Santo Graal do peso desejado. Crie o hbito de se pesar uma vez por semana e anotar as alteraes em um grfico.
3- Preveja as recadas: Relacione as situaes do cotidiano que podem lev-lo a pr tudo a perder. Ao antever possveis recadas, voc se fortalece para enfrentar os percalos quando eles aparecerem.
quando
4- Registre as escapadelas: Toda vez que cometer algum excesso alimentar, anote os desvios de rota  quanto, quando e por que comeu alm da conta. Saber que tem de registrar por escrito seus erros o far pensar duas vezes antes de comer exageradamente.
5- Tenha certeza de que  para sempre: Emagreceu e chegou ao peso desejado? Parabns. Voc agora pode at se permitir algumas (e pequenas) extravagncias, mas saiba que o controle alimentar e a prtica regular de atividade fsica so para o resto da vida. Se existe tendncia para engordar,  crucial comer sempre menos do que seus amigos que no tm esse problema. Com o tempo, os novos hbitos de vida sero encarados com naturalidade.

O EMPENHO NO TEM PODER MGICO
     Motivao, empenho e fora de vontade so fundamentais para iniciar o tratamento de vcios como lcool, drogas e compulso para jogos. No entanto, no tm poder mgico. A disposio para se tratar  crucial, diz a psiquiatra Ana Cecilia Marques, da Universidade Federal de So Paulo. Mas, diferentemente de outros problemas, as doenas psiquitricas alteram justamente a rea do crebro relacionada  fora de vontade. As drogas agem no crtex pr-frontal, rea relacionada  tomada de decises.  comum que o dependente decida abandonar o vcio e busque tratamento. Contudo, viciados desistem com mais facilidade. O problema: o histrico do consumo de drogas faz com que a motivao inaugural se torne instvel. Quem nunca conheceu um fumante que decidiu largar o vcio e o encontrou depois dando algumas tragadas? No, no  a falta de fora de vontade com sua ruidosa
presena.
     Um exemplo claro desse comportamento  o do alcolatra que decide parar de beber. Ele consegue ficar sem um copo  mo por poucos dias, mas logo depois sente os efeitos da abstinncia. A presso arterial aumenta, h taquicardia, ansiedade e suor. Os sinais aparecem depois de trs dias da retirada total do lcool no organismo. Por isso, o acompanhamento mdico  indicado durante todo o processo. Podem-se utilizar medicamentos para controlar a ansiedade e os sintomas. Outra estratgia comum  trabalhar a motivao ao longo do tratamento, sempre ressaltando os prs e contras de abandonar o vcio. Uma minoria dos pacientes consegue se tratar sem a ajuda mdica, diz Marques. No caso do alcoolismo, somente 10% das pessoas param de beber por conta prpria.

O QUE FAZER QUANDO NO H NIMO PARA...
...PRATICAR EXERCICIOS - Fazer ginstica nem sempre  prazeroso. Algumas pessoas demoram a romper a barreira da satisfao e encaram a atividade fsica como uma tarefa penosa e repetitiva. A persistncia  essencial nos trs primeiros meses, dizem os especialistas. Depois que a atividade vira um hbito,  mais fcil perceber os benefcios na sua rotina diria.
...ECONOMIZAR DINHEIRO   comum que as pessoas superestimem o prprio autocontrole na hora de poupar. Quando o dinheiro entra na conta, dificilmente  destinado a uma poupana. A soluo para quem no consegue guardar  adotar mecanismos que previnam qualquer tentao. Vrios estudos j demonstraram que uma boa sada nesses casos  programar um depsito automtico.  melhor no ver a cor do dinheiro e no contar com ele no oramento mensal.
...TRABALHAR MELHOR - Adiar o incio de um projeto, no prestar ateno em uma reunio ou perder horas nas redes sociais quando h trabalho a ser feito so atitudes comuns aos funcionrios desmotivados e que, obviamente, atrapalham a produtividade. Quem sabe disso e precisa vencer a preguia deve estabelecer um objetivo  muito bem definido e concreto. Depois, o ideal  criar uma estratgia para alcan-lo. Encare a tarefa como um desafio pessoal (e no profissional). Dessa forma, a fora de vontade tende a ser maior.
...ESTUDAR MAIS - Aprender lnguas, um instrumento novo, estudar ou ler mais livros so desejos que precisam de dedicao e determinao. As pessoas dizem que querem, mas nunca se mexem para mudar ou desistem fcil no meio do caminho. Nesse caso, o conselho : procure descobrir algo prazeroso na atividade a ser cumprida. O fantasma da falta de determinao desaparece, j que o prazer com a realizao daquela atividade torna tudo muito natural.
...PARAR FUMAR - O primeiro passo, dizem todos os especialistas,  querer abandonar o vcio. Para conseguir a fora para mudar,  preciso racionalizar as consequncias prejudiciais  sade desse hbito e pensar no impacto das escolhas atuais no seu futuro. Dividir a deciso com a famlia e amigos prximos far voc pensar duas vezes antes de ter uma recada.

Fontes: Eduardo Giannetti, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e autor do livro O Valor do Amanh (Companhia das Letras); Hlio Deliberador, professor do Departamento de Psicologia Social da PUC, em So Paulo; e o livro A Bias for Action: How Effective Managers Hamess Their Willpower, de Heike Bruch e Sumantra Ghoshal.


3. VIDA DIGITAL  NEM TUDO  BOBAGEM
Os vdeos virais, fenmeno vocacional da internet, quase sempre so superficiais e levados na brincadeira. Mas j rendem fortunas e inflam discusses on-line e off-line.
FILIPE VILICIC

     Se algum lhe disser algo cifrado como Oppa vive um estilo Gangnam, e a isso associar uns passinhos de dana, a dana do cavalo, finja entender, faa cara de antenado, v ao YouTube e descubra o mais recente megassucesso da internet. Trata-se do refro, em coreano, do clipe irritantemente adesivo de um rapper sul-coreano. Nele, um certo Psy, eis o nome do Michael Jackson de araque, faz crticas ao bairro Gangnam, reduto dos ricos de Seul. Oppa  como as mulheres coreanas chamam os amigos ou namorados mais velhos. Desde que foi lanado, em julho, o vdeo j atraiu mais de 280 milhes de pessoas a seus incontornveis quatro minutos, voc ainda vai v-lo. A letra? Pouco importa. A coreografia e o ritmo  que colam. O burburinho criado em volta de Gangnam Style ecoa um fenmeno que tem a idade da internet mas  ainda pouco compreendido: o viral, um bicho pegajoso. Viral  o status dado ao que  compartilhado milhes de vezes pela web. O termo traduz o fenmeno de multiplicao de um vdeo pelos corredores virtuais. Popularizou-se a partir de 2005 com a criao do YouTube. Os virais parecem bobagem para quem os v de longe, mas tm moldado o comportamento on-line e off-line.
     Existem vdeos de tudo quanto  tipo. H o do coreano danando. O de um americano admirando um arco-ris (soma 35 milhes de acessos), outro de um co pulando em uma cama elstica (2,5 milhes) e o clipe de Ai Se Eu Te Pego, do neossertanejo Michel Tel (o brasileiro mais visto, com 436 milhes). No h um nmero preciso de visualizaes que se deve atingir para ganhar a alcunha de viral. Passar do primeiro milho concede crdito. Superar 100 milhes consolida o vdeo: na prtica, ele ganha algumas linhas de explicao na histria da internet. O que chegou mais depressa  marca  o Kony 2012, manifesto contra um lder miliciano em Uganda (veja o quadro ao lado). O mais visto at hoje  o da msica Baby, do cantor Justin Bieber, com 800 milhes de visualizaes. Descartados os virais de produo profissional, o campeo  Charlie Bit My Finger  Again, que mostra um beb mordendo o dedo do irmo, com 483 milhes.
     Um olhar cuidadoso aos virais que conseguem mais acessos permite identificar caractersticas comuns. A frmula ainda est em construo e reproduzi-la  o novo grande desafio para publicitrios e produtores de filmes e msicas, disse a VEJA o americano Kevin Allocca, responsvel pela equipe do YouTube que analisa como surgem os campees de audincia, como ganham popularidade e o que os faz explodir (veja a entrevista na pg. 106). O tema dos vdeos costuma girar em torno de assuntos de fcil compreenso e apelo emocional: bebs e animais em cenas simpticas, danas engraadas, msicas. Filmes mudos ou para os quais no  preciso ter proficincia na lngua falada para entender o que  dito alcanam o sucesso mais rpido. Resumiu a VEJA o programador ingls Howard Davies-Carr, que filmou seus filhos no vdeo Charlie Bit My Finger  Again: O apelo universal da fofura das risadinhas dos meus filhos  o que fez o filme se multiplicar. O sotaque ingls deles deixa a cena ainda mais agradvel, mesmo para quem no fala o idioma. Os virais se espalham primeiro pelo famoso boca a boca, ou melhor, de e-mail para e-mail. Sites de humor e redes sociais promovem discusses e piadas sobre os vdeos.  normal surgirem pardias e verses de terceiros. Brincadeiras que tiram sarro de Gangnam Style figuram entre as mais vistas da web. Naturalmente, por bvio, o brasileiro Latino tirou sua casquinha e tratou de lanar uma verso brega da cano sul-coreana. Os vdeos estouram quando celebridades da web, por gostar deles (ou odi-los), comeam a replic-los para seus fs. O sucesso ento sai do mundo virtual e parte para o real.
     Os virais criam discusses fervorosas, alam annimos ao estrelato e lanam moda e hbitos, tanto no universo on-line quanto no off-line. O cantor adolescente Justin Bieber apareceu em vdeos que publicava no YouTube. Agora, tem 28 milhes de fas no Twitter, faz shows ao redor do mundo, participou de sries de TV e ganhou um filme sobre sua carreira. Seu estilo de se vestir, seu corte de cabelo e seu palavreado so replicados por adolescentes. A msica  uma das industrias mais transformadas. Nove dos dez virais mais vistos so clipes. Agora mesmo, neste fim de semana, o YouFest rene em Madri, na Espanha, artistas que surgiram na internet. Talvez seja o nico evento divertido do momento numa Espanha ferida pela crise do desemprego.
     O impacto do viral tambm pode ser poltico. Apesar de conter diversos erros de informao, o vdeo Kony 2012 inflou discusses sobre a situao de crianas raptadas por milicianos na frica. Discursos do presidente Barack Obama chegam a ser vistos por mais de 5 milhes de pessoas  e produes que criticam seu governo atingem patamar similar. Um filme que faz piadas de mau gosto com o islamismo serviu de ridculo pretexto para revoltas que culminaram em um ataque ao Consulado dos Estados Unidos em Bengasi, na Lbia, e no assassinato de um embaixador americano. No raro, os virais rendem fortunas. O pai de Charlie, do Charlie Bit My Finger, lucrou 500.000 dlares com anncios vinculados ao vdeo.
     O hit do momento, o Gangnam Style,  um caso cujo impacto abrange todos esses aspectos. Sua letra que critica a elite sul-coreana despertou discusses at sobre gastos excessivos em cartes de crdito na sia. O rapper Psy ganhou fama internacional e novos contratos. Disse a VEJA Robert Kyncl, vice-presidente do YouTube: Os virais mudaram diversos aspectos do cotidiano e a forma como nos comunicamos. Antes, canais de TV peneiravam quem se comunicava com grandes audincias e determinavam as celebridades. Essa barreira acabou.
COM REPORTAGEM DE RENATA LUCCHESI

O MAESTRO DOS VIRAIS
O trabalho do americano Kevin Allocca  entender o que so, como se multiplicam e o que representam os virais no ecossistema da internet. No YouTube, ele dirige a equipe responsvel por analisar os tpicos mais populares. Tambm faz palestras sobre o tema. Em visita ao Brasil, Allocca falou a VEJA.

Como os virais afetam o mundo? 
Plataformas como o YouTube permitem que, pela primeira vez na histria, um americano possa discutir com um japons, em tempo real, sobre um vdeo que v naquele momento. Tpicos antes restritos a uma cultura foram globalizados. Annimos podem se tornar mundialmente famosos. Antes, o poder de vincular um vdeo era controlado pelos canais de TV. Hoje, qualquer um pode criar seu vdeo e mostr-lo a quem quiser. O pblico peneira o que se torna popular.

Muitos tentam descobrir a frmula que garante milhes de visualizaes Ela existe? 
 a pergunta do bilho de dlares. A publicidade por meio de virais  efetiva porque s  vista por quem escolhe v-la. Se milhes clicam, o sucesso do produto  garantido. Ainda se sabe pouco de como conseguir isso. O caminho  atentar para trs aspectos de um viral: boa divulgao em redes sociais, instigar a interao e, o que  mais difcil de reproduzir, um elemento que surpreenda.

Por que vdeos bobos so to populares? 
Rir da fofura de um beb  compreensvel para qualquer um. Para entender um filme complexo normalmente  preciso saber a lngua falada nele. Um chins dificilmente compreender um manifesto poltico brasileiro.

O que faz com que o YouTube seja constantemente processado por quem se sente incomodado por contedo exibido nele, algo que ocorre com frequncia no Brasil? 
O conceito de vdeos on-line  difcil de ser compreendido. Diferentemente de um canal de TV, o que vinculamos no representa nossa opinio. Servimos de plataforma para que qualquer um diga o que pensa. Retiramos mensagens criminosas. Mas no podemos tirar um vdeo s porque a opinio nele contida desagradou a algum.


4. VIDA DIGITAL  QUERIDINHOS DA WEB
Alguns dos vdeos mais vistos da internet mostram a fofura dos gatos e suas travessuras.

     A internet confirma que os gatos  e no os ces  so os mais populares animais de estimao. Entre os dez vdeos mais vistos no YouTube no ano passado, dois tm esses fofos bichanos como personagens. H um ms, a cidade americana de Minneapolis sediou um evento que atesta o carter viral dos felinos na web. Uma badalada galeria de arte local, a Walker Art Center, por meio de seu site, promoveu um concurso que convocava as pessoas a enviar seus vdeos favoritos de gatos para eleger os melhores. Recebeu nada menos que 10.000 vdeos, de duas dezenas de pases, que mostravam fofuras e travessuras de felinos. Diante desse sucesso, a galeria realizou uma exibio pblica das produes campes numa praa da cidade. O evento reuniu cerca de 10.000 espectadores.
     Por que os gatos fazem tanto sucesso na internet? O americano William Braden, de 32 anos, autor do vdeo que foi eleito o grande vencedor do concurso de Minneapolis, arrisca uma explicao: Os donos de ces levam seus animais para passear e acabam se socializando nas ruas. J os gatos no passeiam. Na comunidade on-line, seus donos podem trocar experincias com outros donos de gatos. A pea de Braden, chamada Henri II, que teve 5,7 milhes de visualizaes no YouTube, mostra as reflexes um tanto existencialistas de seu bichano enquanto passeia pela casa. As quinze horas que durmo por dia de nada adiantam, porque acordo e mergulho no mesmo tdio de sempre, ele filosofa. A seguir olha para os passarinhos na gaiola e arremata: E meus donos ainda deixam os petiscos fora de meu alcance. Impagvel.
RENATA LUCCHESI


5. PR-SAL  O DINHEIRO IMIGROU
Sem espao para ampliarem suas reservas no Brasil, as mltis do petrleo esto dirigindo investimentos para novas fronteiras exploratrias espalhadas pelo mundo. S uma rpida volta aos leiles pode mudar esse cenrio.
HELENA BORGES

     Quando a descoberta do pr-sal foi anunciada, em 2007, as companhias de petrleo em peso tomaram o rumo do Brasil, atradas pela propalada existncia de uma Arbia Saudita aguardando para ser explorada no fundo do mar. Cinco anos depois, a situao mudou, e no foi para melhor. Enquanto novas e importantes fontes de combustvel so descobertas ao redor do mundo, o pr-sal ainda engatinha, a produo brasileira estagnou e as empresas petrolferas estrangeiras, desanimadas, esto minguando seus investimentos no pas ou mesmo indo embora. Em reao a esse movimento  e  presso das empresas reunidas no Rio de Janeiro h duas semanas para uma feira do setor , o governo anunciou que as rodadas de licitao de novos poos, na prtica suspensas desde 2008, devem ser retomadas. Pelo cronograma divulgado, em maio sero licitados blocos em terra e mar e, em novembro, finalmente, ocorrero os primeiros leiles do pr-sal. A notcia foi recebida com um p atrs  para se concretizar, a distribuio dos blocos depende de espinhosas movimentaes polticas, sobretudo quanto  distribuio de royalties, exatamente o que vem emperrando a explorao das reservas de petrleo no mar profundo desde o comeo.
     Cientes do tamanho da dificuldade, nos ltimos meses sete petroleiras com atuao no Brasil venderam parte de seus negcios aqui e decidiram aplicar os recursos destinados a novos investimentos em pases como Canad, Estados Unidos, Angola e Nigria  todos com descobertas feitas depois do pr-sal, mas j em plena operao (veja o quadro abaixo). O desenvolvimento dessas novas fronteiras de explorao de fontes de combustvel fora do Brasil recebeu s no ano passado 174 bilhes de dlares do setor privado, mais do que todo o oramento da Petrobras para o pr-sal at 2016. O mundo vive um boom de investimentos em petrleo, mas o dinheiro novo no est vindo para o Brasil. E no vem por um motivo simples: no h novas oportunidades aqui, diz Jorge Camargo, ex-presidente no pas da Statoil, empresa que no ano passado se desfez de 40% de sua parcela no campo Peregrino, na Bacia de Campos.
     O movimento das multinacionais obedece  lgica mais elementar do capitalismo. Petroleiras precisam renovar suas reservas continuamente para garantir sobrevivncia e lucros, j que os poos se esgotam. Como o Brasil praticamente travou todas as tentativas de rodadas de venda de blocos desde o anncio do pr-sal, s esto atuando na rea as empresas que tiveram a sorte de conseguir um quinho da explorao dessa riqueza antes e hoje so scias da Petrobras. A prpria Petrobras tem contribudo para o desnimo geral dos investidores, com decises que afetam negativamente seus resultados e esto provocando a ira dos scios minoritrios (veja o quadro abaixo). Nesse contexto. as multinacionais que no tm onde perfurar esto optando por ir embora. A ltima a abandonar a explorao no Brasil foi o gigante americano Exxon Mobil, a maior companhia de petrleo do mundo, que em abril anunciou ter desistido do Azulo, bloco no pr-sal que no se provou vivel. A Exxon est investindo 185 bilhes de dlares em novas reas ao redor do mundo nos prximos cinco anos  nenhuma delas no Brasil. Sua maior aposta se encontra nos Estados Unidos, pas que vive uma revoluo energtica graas ao avano da tecnologia para retirar o gs preso dentro de rochas no subsolo. A produo americana do gs de xisto triplicou nos ltimos quatro anos, o que tornou o pas autossuficiente em gs e ajudou a reduzir em 27% a importao de derivados do petrleo nesse perodo. Desde 2011, o setor privado como um todo investiu 234 bilhes de dlares nos Estados Unidos, e 600.000 empregos foram criados desde 2010. Para os americanos, o gs de xisto pode ser uma das formas de sair da crise. E ns, que tnhamos tudo para estar vivendo uma prosperidade indita, estamos sentados sobre nossas reservas, lamenta Adriano Pires, consultor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.
     O desnimo das empresas estrangeiras ficou patente em julho passado, quando a americana Anadarko desistiu de repassar sua operao no Brasil por falta de interessados. Mais sorte teve a espanhola Repsol, que vendeu 40% de seus campos  chinesa Sinopec ainda em 2010, no auge do entusiasmo mundial com o Brasil. A Shell tambm vendeu uma participao no pr-sal  novata Barra Energia e agora concentra os maiores quinhes de seus novos investimentos em explorao nos Estados Unidos, no leo pesado que emerge das areias do Canad e do Alasca e ainda na frica, onde as condies geolgicas so semelhantes s do pr-sal. S neste ano, o gigante ingls investir 30 bilhes de dlares em novos negcios. Embora uma parte venha para os blocos que a empresa j tem em explorao no Brasil, a maior fatia vai para as novas fronteiras petrolferas. Se a recm-anunciada volta s licitaes resultar em negcios concretos, o Brasil poder retornar ao time dos detentores de reservas efetivamente promissoras. Se no, poder chegar a 2015 sem nenhum poo sendo perfurado, mesmo com o subsolo repleto de leo. Todo ms recebemos duas ou trs consultas de empresas de fora querendo se instalar aqui. Se houver onde investir, elas viro, garante Joo Carlos de Luca, presidente do Instituto Brasileiro do Petrleo (IBP).

PASES QUE FAZEM
Enquanto o Brasil empaca na explorao do pr-sal, as multinacionais do petrleo pem seus recursos na expanso de negcios mais promissores em outras partes do mundo. Alguns exemplos:
Fontes: Instituto Brasileiro de Petrleo, Gs e Biocombustveis (IBP), Barclays e BP.

BRASIL
NOVAS DESCOBERTAS: Petrleo do pr-sal
SALTO NOS INVESTIMENTOS EM 2012: 3%
PRODUO TOTAL (Petrleo e gs em milhes de barris/dia): 2,1

ESTADOS UNIDOS
NOVAS DESCOBERTAS: Gs de xisto, capturado nos poros das reservas desse tipo de rocha existentes no nordeste do pas
SALTO NOS INVESTIMENTOS EM 2012: 10%
PRODUO TOTAL (Petrleo e gs em milhes de barris/dia): 7,8

FRICA
NOVAS DESCOBERTAS: Petrleo em guas profundas, como no pr-sal brasileiro, na costa da Angola e da Nigria
SALTO NOS INVESTIMENTOS EM 2012: 14%
PRODUO TOTAL (Petrleo e gs em milhes de barris/dia): 8,8

CANAD
NOVAS DESCOBERTAS: Oil sand, o leo retirado da areia betuminosa
SALTO NOS INVESTIMENTOS EM 2012: 3%
PRODUO TOTAL (Petrleo e gs em milhes de barris/dia): 3,5

POLTICA  NOCIVA  PETROBRAS
Um grupo de investidores est especialmente apreensivo: os fundos estrangeiros que so acionistas minoritrios da Petrobras. Preocupados com os maus resultados da estatal, eles protestaram formalmente  sua presidente, Graa Foster e ao ministro Guido Mantega. Eles reclamam da eleio do empresrio Josu Gomes da Silva, da Coteminas, para represent-los no conselho. Foi um jogo de cartas marcadas, disse a VEJA Karina Litvack, diretora do F&C de Londres, administradora de ativos de 160 bilhes de dlares.

Os fundos no foram consultados sobre a eleio de Josu da Silva? 
Teoricamente, tivemos a oportunidade de votar. Mas o processo foi cheio de falhas. Uma vez indicado, ele foi automaticamente empossado por ter o apoio do bloco formado por Previ, Funcef e BNDES  que no deveriam ser classificados como minoritrios, j que seus interesses so alinhados com os do governo. Os interesses dos verdadeiramente minoritrios no esto representados.

Vocs tentaram resolver a questo antes de ela vir a pblico? 
Procuramos o ministro Mantega, que  presidente do conselho, em vrias ocasies. Em vo.

Quais so os problemas de gesto da Petrobras? 
Confiamos nos administradores da empresa, mas  preciso livr-la de interferncias polticas. Esperamos que nossos representantes pressionem a gesto atual a reconsiderar os investimentos em refinarias, j que no existe um sistema formal para calcular o preo a ser cobrado por produtos como gasolina e diesel. Desde agosto de 2009, a Petrobras j perdeu 48% de seu valor, ou 164 bilhes de dlares. E isso num perodo em que as aes das petroleiras aumentaram, em mdia, 46%.  uma destruio de valor que nos preocupa, ruim diante do enorme desafio do pr-sal.  urgente mudar de rumos.


6. PERFIL  A DESAFIANTE DA GRAVIDADE
 impossvel no cair na gargalhada diante da humorista Tat Werneck.  Ela usa qualquer arma para garantir isso, inclusive as sujas: buo, escatologia, inteligncia...
MARIANA AMARO

     Olhando assim no parece, mas Talita Werneck  aristotlica. Basta relembrar seus personagens cmicos: Roxanne, a sub-celebridade burra; a autoexplicativa Taty Piriguete, que vive num satirizado programa de Luciana Gimenez: a feia e fronteiria Fernandona, habitante do poro da casa da famlia que a rejeita. Tudo Aristteles puro, segundo as definies feitas h mais de 2300 anos pelo filsofo grego sobre os personagens tpicos da comdia, incluindo gente de padres morais duvidosos, pretensiosos ridculos ou perdedores natos. Talita comeou cedo a burilar essa galeria  e a se transformar na hilria Tat, hoje apresentadora de dois programas humorsticos da MTV, Trolal e Comdia. Tinha 14 anos quando foi convidada a se retirar de uma escola pela primeira vez. A diretora do tradicional colgio carioca explicou  me preocupada que a menina no diferenciava bem a realidade da fantasia. S porque ia para a aula vestida de noiva, em pijamas e com um bigode postio. Talita tambm foi expulsa do ingls, da academia de ginstica e, quase, da segunda escola  seu nome constava da lista dos dez alunos mais encrenqueiros da instituio. Nove meninos e eu. Um dia feliz para mim era quando eu parava a aula e fazia todo mundo rir, relembra.
     O curso de teatro feito para canalizar tanta energia aprimorou a assombrosa capacidade de improvisao da humorista. Conversar com ela exige um exerccio contnuo de concentrao, porque Tat tenta e consegue fazer o interlocutor rir o tempo inteiro. Para ver voc gargalhar, eu perco a dignidade e a vaidade, eu minto. Como sei que sou feia, falo da minha banha e do meu nariz e dano a hula, dispara Tat, envesgando os olhos e retorcendo a boca. O teor quase infantil de suas tiradas  a substncia de um de seus programas, o Trolal, em que ela passa trotes pelo telefone. Em um dos ltimos episdios, Tat enganou a prpria av. Minha famlia estava louca porque descobriu que ela tinha gasto 5000 reais no Polishop. Pedi a um colega para ligar e se passar por um vendedor, dizendo que havia um problema na entrega. O engraado  que ela jurava que no tinha comprado nada! A av foi a pessoa a quem ela deu o primeiro presente pago com o salrio da TV: uma prtese dentria.
     Formada em publicidade e em artes cnicas, Tat demorou para se estabilizar financeiramente. Durante anos, vendeu maquiagem de porta em porta e fez anncios vestida de siri e de absorvente. Sua me, a jornalista Claudia Werneck,  uma das fundadoras da Escola de Gente, instituio que promove a incluso de portadores de deficincia. Tat inspirou-se nela para criar, em 2003, o grupo de teatro Os Inclusos e os Sisos. Todas as apresentaes da trupe tinham legenda, linguagem de sinais e programa em braile. Em 2007, em uma das peas, Tat interpretou uma personagem com sndrome de Down. Alguns crticos acreditaram que ela era mesmo da turma do cromossomo extra. No ano passado, ela e outros humoristas da MTV criaram um quadro chamado Casa dos Autistas, que redundou em um processo por danos morais. O que a gente queria era fazer uma stira ao modo como a sociedade trata pessoas com deficincia. Sei de pais que abandonam filhos doentes, defende-se a humorista.
     Tat mente a altura  aumenta de 1,52 metro para 1,56 , ressalta o leve buo e se joga no humor escatolgico. Enfrenta com obsesso voraz a desvantagem natural das mulheres no mundo da comdia. Ela sabe que quem quer fazer rir tem de ser autodepreciativo em algum nvel. Muita mulher quer ser engraada e sedutora ao mesmo tempo. No d, analisa o humorista Hlio de La Pea. E tem outro problema: a gente tem medo de mulher piadista. Ela vira o centro das atenes e os homens olham todos para ela. Tat acaba de reatar o mesmo e acidentado namoro pela quinta vez. Entre os artistas do improviso,  vista como uma parceira generosa. Ela  tima para finalizar piadas e tambm faz muita escada para os outros, diz Paulo Serra, seu colega na MTV e num programa habitual: sair para jantar e, depois de pagar a conta, fazer um pli na frente do garom e sair correndo do restaurante. Nada me d mais alegria do que fazer algum rir, diz Tat. Ser engraada  um jeito de ser querida. Como Aristteles e Tiririca, ela sabe muito bem como rir e chorar so prximos. 


7. DEMOGRAFIA  UMA TURMA BEM PREPARADA
O novo fluxo migratrio para o Brasil  composto de profissionais qualificados que veem a oportunidade de crescer e fugir da crise econmica e do desemprego em outros pases.
ALEXANDRE SALVADOR

     Em 2009, o primeiro ano aps a crise financeira que abalou os Estados Unidos e a Europa, o economista italiano Rosario Cannata, que vivia em Nova York fazia um ano, se assustou ao ver seu mercado de trabalho encolher depois que vrias instituies financeiras fecharam as portas. Numa entrevista para um novo emprego, ouviu que no havia vagas nos EUA, e sim no Brasil. Cannata recusou a oferta, mas um fato mudaria sua opinio. Ao ver o Cristo Redentor estampado na capa da revista The Economist, acompanhado da chamada O Brasil decola, ele resolveu aceitar o emprego. Hoje, Cannata mora em So Paulo e trabalha numa empresa de prospeco de petrleo que presta servios para a Petrobras. Assim como Cannata, milhares de outros estrangeiros esto desembarcando no Brasil em busca de melhores condies de vida e emprego. Desde 2010, foram 550.000 novos imigrantes que estabeleceram residncia no pas. O nmero de autorizaes de trabalho, temporrias e permanentes, saltou de 43.000, h trs anos, para 70.000, em 2011. Vinte anos atrs, no passavam de 2600 por ano.
     Ocorre que esse novo fluxo migratrio  muito diferente daquele ocorrido no fim do sculo XIX e incio do sculo XX, em que milhes de imigrantes europeus e japoneses substituram a mo de obra escrava nas lavouras. Os novos imigrantes so profissionais qualificados que fogem da estagnao econmica e das altas taxas de desemprego em seu pas de origem. Embora o Brasil, atualmente, venha crescendo a um ritmo menor que o dos ltimos anos, o desemprego continua baixo e existe muita oferta de mo de obra em reas como engenharia e nos setores financeiro e de tecnologia da informao, para os quais no h brasileiros qualificados em nmero suficiente no mercado de trabalho. Segundo dados do Ministrio do Trabalho, dessas 70.000 pessoas que obtiveram visto de trabalho em 2011, mais da metade possui curso superior completo. A maior demanda de mo de obra hoje no Brasil  na rea de petrleo, para conduzir o processo de explorao em plataformas, diz Paulo Srgio Almeida, diretor da Coordenadoria-Geral de Imigrao do Ministrio do Trabalho.
     O setor de obras de infraestrutura e a construo civil tambm tem uma demanda grande por profissionais. Os eventos esportivos mais importantes do planeta que acontecero no Brasil, a Copa do Mundo em 2014 e a Olimpada de 2016, envolvem obras que tem atrado os estrangeiros. A portuguesa Marisa Gomes chegou ao pas no incio do ano passado para chefiar a operao brasileira da Somarsil, empresa portuguesa do setor de construo. O mercado na Europa est bastante limitado, e minha empresa notou que aqui existe uma enorme carncia em infraestrutura e instalaes adequadas, diz ela, que veio com o marido. A mudana resultou em uma melhora inclusive financeira para Marisa, mesmo com o alto custo de vida no Brasil. Esses expatriados veem a oportunidade de liderar uma operao estrangeira como um trampolim na carreira, diz o advogado Ren Ramos, scio da Emdoc, escritrio que oferece assessoria a empresas que desejam contratar funcionrios estrangeiros. Uma experincia bem-sucedida no Brasil pode ser o caminho mais rpido para uma posio de destaque na firma caso o profissional decida um dia voltar para a matriz, ele completa.
     Para que um imigrante qualificado se estabelea no Brasil no basta a disponibilidade para se mudar. De acordo com a legislao brasileira,  a empresa ou o rgo contratante que deve solicitar o visto de trabalho para o estrangeiro. Mesmo assim, muitos vm ao Brasil sem nenhuma garantia, com um visto de turista ou de estudante. H um nmero crescente de pessoas que chegam aqui e tentam se integrar ao mercado atravs de um MBA ou ps-graduao, diz Oliver Stuenkel, professor de relaes internacionais da Fundao Getulio Vargas. Elas usam a especializao para entrar em contato com empresas, ele completa. Na Universidade de So Paulo ocorreu um crescimento no nmero de alunos vindos de fora do Brasil. Em 2006, havia 399 alunos de graduao oriundos de universidades estrangeiras. No ano passado, eram 977. Tambm aumentou o grupo de estrangeiros que cursam ps-graduao na universidade: saltou de 785 para 1150 no mesmo perodo.
     De acordo com o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o dficit de mo de obra qualificada vai obrigar as empresas a buscar cada vez mais funcionrios no exterior. Diz Jos Tadeu da Silva, presidente do Confea: Por ano so registrados cerca de 30.000 novos profissionais da rea tecnolgica, desde o nvel tcnico at o superior. Em cinco anos, a expectativa  que vamos precisar de 300.000 trabalhadores nessa rea, e teremos formado apenas a metade. Boa parte das vagas restantes deve ser preenchida com mo de obra estrangeira. A empresa japonesa Kawasaki, que participa da construo de um novo estaleiro na cidade baiana de Maragogipe, se prepara para trazer do Japo 100 funcionrios, desde soldadores at engenheiros navais. Carlos Arruda, coordenador do Ncleo de Inovao e Competitividade da Fundao Dom Cabral, que mantm cursos de administrao, apresenta mais um motivo para as empresas brasileiras buscarem profissionais no exterior: a m qualidade de muitas faculdades no pas. Diz ele: Empresas do setor de construo civil esto contratando muito no exterior, principalmente na Frana e na Espanha. Existe outra explicao para isso alm do nmero insuficiente de profissionais sendo formados. A qualificao dos engenheiros diplomados em faculdades de segunda linha  insatisfatria. Por isso, d-se preferncia a um engenheiro formado em uma escola mediana na Frana, por exemplo.
     O nmero de estrangeiros que vm para o Brasil dispostos a investir o prprio dinheiro num negcio tambm aumentou. De acordo com o Ministrio do Trabalho, o montante de investimentos estrangeiros de pessoas fsicas cresceu 40% nos ltimos trs anos, totalizando 204 milhes de reais em 2011. Ao colocar a quantia mnima de 150.000 reais no capital social de uma empresa sediada no Brasil, o estrangeiro ganha o direito ao visto permanente. Os poucos aventureiros que montavam uma pousada em alguma praia do litoral deram lugar a investidores em reas relacionadas ao crescimento da economia brasileira, como tecnologia e engenharia. O americano Jacob Rosenbloom  um desses imigrantes que vieram se aproveitar da boa fase do Brasil. Depois de conhecer o pas, entre 2007 e 2009, trabalhando na operao brasileira do banco Goldman Sachs, decidiu retornar ao Brasil para abrir uma consultoria de RH em So Paulo. O mundo foi afetado pela crise econmica e os investidores visaram o Brasil. Como eu j tinha morado aqui e visto o desenvolvimento econmico do pas com meus prprios olhos, resolvi voltar, ele diz. Ao contrrio do que ocorria na importao de mo de obra estrangeira na virada do sculo XIX para o XX, o novo fluxo migratrio para o Brasil oferece grandes oportunidades de crescimento a quem vem trabalhar.

ENGENHEIROS EM ALTA - A portuguesa Marisa Gomes, de 30 anos, chegou ao Brasil em 2011 para suprira dficit de profissionais ligados  engenharia no mercado de trabalho nacional. Ela foi chamada para implantar a operao brasileira da Somarsil, uma empresa portuguesa de construo civil. O fato de a Europa estar em crise limitou muito o mercado de construes no continente, ela diz. J o Brasil passa por uma situao totalmente aposta, com grande otimismo econmico.

APOSTA - O empresrio americano Jacob Rosenbloom, de 31 anos, est na sua segunda passagem pelo Brasil. Em 2007, trabalhou para o banco Goldman Sachs, em So Paulo, por dois anos. A experincia brasileira foi positiva. Alm de aprender kitesurf percebeu que tinha aqui uma oportunidade de negcio. Resolvi voltar, desta vez como investidor, diz Rosenbloom, que fundou em So Paulo uma empresa de recursos humanos, em funcionamento h seis meses.

FUGINDO DA CRISE - O economista italiano Rosario Cannata, de 28 anos, morava em Nova York quando sobreveio a crise econmica mundial. Vendo seus possveis empregadores se retrarem, ou fecharem as portas, ele comeou a considerar oportunidades fora dos Estados Unidos. Escolheu o Brasil, onde trabalha numa empresa de prospeco de petrleo e gs. Todo mundo tem uma expectativa positiva sobre o Brasil diz Cannata, que nas horas de lazer acelera nas pistas de enduro com os amigos brasileiros.

O MAPA DA IMIGRAO
Mais gente quer viver no Brasil
50% foi o crescimento do nmero de estrangeiros residentes no Brasil nos ltimos trs anos.

Cada vez mais estrangeiros vm para trabalhar...
24% foi o aumento no nmero de vistos de trabalho (permanentes e temporrios) concedidos no primeiro semestre deste ano, com relao ao mesmo perodo do ano passado.
..e sua qualificao profissional  cada vez maior
5 vezes mais vistos de trabalho so concedidos a estrangeiros com mestrado, em relao a 2009

De onde eles partem 
Estados Unidos, Filipinas e Inglaterra so os trs pases que mais exportam mo de obra para o Brasil.

DOIS GRANDES XODOS MIGRATRIOS
 Colonizao
4% dos ingleses, 7% dos espanhis e 5% dos portugueses se mudaram para as colnias entre 1500 e 1700
 Grande fome da batata. Em quatro anos, 18% da populao da Irlanda deixou a ilha, quando, entre 1845 e 1849, um fungo devastou a produo de batata.

EM ESCALA GLOBAL
O nmero de pessoas que vivem fora de seu pas de nascimento disparou nos ltimos 100 anos, mas o porcentual de imigrantes em relao  populao mundial variou pouco.
(Nmero de imigrantes em milhes de pessoas e porcentual em relao  populao mundial)
1910: 33  2,5%
1960: 74,1  2,7%
1990: 156  2,9%
2000: 179  2,9%
2010: 214  3,1%

AS MAIORES COMUNIDADES DE IMIGRANTES
(Dados de 2010)
11,6 milhes de mexicanos vivem nos Estados Unidos
3,3 milhes de nativos de Bangladesh vivem na ndia
2,7 milhes de turcos vivem na Alemanha

Nos pases que mais recebem remessas dos cidados que emigraram, esse dinheiro representa uma pequena parcela do PIB,...
(Em bilhes de dlares, por ano)
1) ndia: 55  Parcela 3,4%
2) China: 51  Parcela 0,85%
3) Mxico: 22,6  Parcela 2,2%
4) Filipinas: 21,3  Parcela 10,7%
5) Frana: 15,9  Parcela 0,6%
25) BRASIL: 4,3  Parcela 0,2%

...mas nos pases pobres as remessas representam uma tremenda injeo na economia
(Em bilhes de dlares, por ano)
Tadjiquisto: 3,5  Parcela 35%
Nepal: 2,1  Parcela 23%
Honduras: 2,6  Parcela 19%
El Salvador: 3,6  Parcela 16%

Fontes: Ministrio da Justia, Ministrio do Trabalho, IBGE, Banco Mundial, ONU, OIT, Organizao Internacional para Migrao, e os historiadores Paulo Cesar Gonalves, da Unesp, e Ismnia de Lima Martins, da UFF.

COM REPORTAGEM DE GUSTAVO SIMON E RENATA LUCCHESI

